quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Carta à minha mãe

Querida mãe,
A nossa relação nunca foi fácil, mas éramos inseparáveis. Desde pequenina que o pai viajava e ficávamos nós as duas sozinhas, lembro-me de estarmos as duas na cozinha e de tu brincares comigo enquanto me tentavas dar de comer (e, pelo que me contaram, era uma tarefa difícil). Lembro-me dos piqueniques que fazíamos em Tróia com a família toda e depois irmos as duas dar um mergulho à praia. Ainda me lembro do dia em que aquela fotografia ao pé da lareira foi tirada: tinhas-me arranjado com um vestido cor-de-rosa e um gancho no cabelo e andavas comigo ao colo no quintal da casa dos avós.
Mas depois tu e o pai começaram a desentender-se e deixámos de ir em piqueniques, o pai deixou de nos tirar fotografias. Acontece, a culpa não foi tua nem dele. Tudo começou a ser mais difícil... Tratavas de duas crianças sozinha, ias todos os dias trabalhar para Lisboa e não tinhas qualquer tipo de tempo livre para ti. E eu tentei, tentei ajudar-te com tudo o que podia, com a comida, a loiça, as limpezas... Enfim. Mas eu tinha boas notas, ótimas aliás, até que deixei de ser aluna de quadro de honra e tu ficaste desiludida. Nunca me disseste, mas era tão óbvio quando foste dizer as minhas notas ao avô já não as disseste com o entusiasmo de antes. Na altura nem me incomodou assim muito, continuava a ter boas notas por isso até me era um bocado indiferente ter o meu nome no quadro ou não. Por cima de isto tudo, já não conseguias pagar a mensalidade do colégio a duas crianças, por isso eu e o meu irmão tivemos de ir para uma escola pública. E tu não estavas satisfeita com isso, quer dizer, durante 7 anos os teus filhos tiveram (o que seria considerada) a melhor educação possível e, de repente, mudam-se para uma escola pequena com um mau ambiente e baixas expectativas. Eu continuava a tentar ajudar-te com tudo, mas começou a ser difícil para mim... Já não tinha motivação para me levantar e, mais tarde, acabaram por me falhar as forças físicas. Mesmo assim acho que tenho toda a legitimidade quando digo que ajudei com o que pude.
As minhas notas eram das melhores da escola, o que não era muito difícil, considerando as bases que tinha, mas havia o problema do Francês... Nunca tinha tido Francês na minha vida e agora era obrigada a ter aulas e fazer testes do 3º ano da língua. Os meus colegas não tinham problema, já tinham tido dois anos antes, mas para mim foi difícil. Comecei pelas negativas e depois lá subi para os suficientes. Não foi suficiente. Tinha só 4s e 5s e depois tinha 2 a Francês... Inadmissível. Havia também a situação da minha vida social inexistente. Tu percebias claramente que, por causa da depressão, era impossível para mim fazer novos amigos ou tentar entrar em contacto com os outros. Nessa altura estavas desempregada, o que ainda era pior porque estavas em casa 24/7 para me observar, e o que reparaste que, para além das idas ao médico, eu não saía de casa. Não falava da turma, não falava da escola. A certo ponto, a minha diretora de turma até te convocou para uma reunião porque todos os professores da turma estavam preocupados com o meu comportamento: estava sempre calada nas aulas e sozinha nos intervalos. Fizeste tudo para me incentivar a sair de casa.
Um dia, eu saí. Fiz amigos, íamos ao cinema, ficava até mais tarde na escola com eles. E tu ficaste feliz, finalmente consegui atingir um grande objetivo. Até ao dia em que fiz mais do que isso: arranjei um namorado. Aí é que foi... Lá passou a anorexia finalmente, já era capaz de ir comer fora sem ter um ataque de pânico. Mas um namorado implica mais saídas, menos tempo em casa.
E voltámos à insuficiência. Era bom que eu saísse, sem dúvida, mas com moderação. Tudo o que é demais é mau. Apesar de eu continuar a ajudar em casa, saía demasiado para o teu gosto, não passava tanto tempo contigo. E tu sempre tiveste este problema: não és capaz de dizer as coisas. Em vez de me dizeres estou com saudades tuas, vem jantar a casa hoje, chateavas-te comigo. Depois começou o ano letivo e, com ele, os problemas. As minhas notas baixaram e eu saía demasiado... A receita para o desastre. Mas até nem ficaste tão desiludida como eu imaginei, desculpaste-me por causa da depressão, percebeste que se calhar era difícil para mim conciliar a minha recuperação com vida social e vida académica.
Este ano correu melhor. Já estou muito melhor e as minhas notas subiram bastante, mas não subiram todas para 20. Meu Deus, nem 20 é suficiente! Consegui tirar a nota máxima a Alemão, mas tinha duas faltas injustificadas... Se tivesse sido 18 ou 19... Mas foi 20!
Em outubro faz dois anos que estou a fazer terapia com a mesma médica. Cheguei lá feita num S, tinha de ir a duas consultas por semana e, cada vez que saía de lá, só me apetecia ir para casa e fechar-me no quarto. Mas fiz um esforço, até porque sabia o quanto tu estavas a gostar de me ver a recuperar. Sei que a médica costuma falar contigo só para te dizer se as coisas estão melhores ou piores, sem te revelar o que se passa nas nossas sessões. Acontece que, há coisa de uns meses, depois deste trabalho todo, a minha fantástica médica conseguiu desvendar o grande mistério: porque é que eu tive anorexia e uma depressão? Por mais que me custe dizer isto, porque gosto tanto de ti, foste tu. Foram todas as minhas tentativas de te agradar que tu desvalorizaste. Foram todas as coisas boas que fiz que deixaram de contar quando fazia alguma coisa mal. Foram as coisas que tu me disseste quando estavas chateada por alguma razão. Foi o constante sentimento de insatisfação.
Gosto tanto de ti, mãe, mas custa-me tanto que tu, até hoje, não te apercebes do que me dizes às vezes. A culpa também é minha, não tenho coragem de te dizer. E sinto-me terrível por isto porque sei que me amas e nunca me quiseste mal.
A nossa relação nunca foi fácil, isto é só mais um obstáculo a ultrapassar.

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