terça-feira, 31 de maio de 2016

Carta ao meu amor

Isto não é uma serenata, não é um agradecimento, mas não sei bem o que é. Há dois anos, neste dia, começou uma nova etapa da minha vida. 
Vou admitir: conheceste-me numa má altura, estava tudo ainda muito confuso e o pior estava ainda para vir. Não te contei tudo no momento, vieste a descobrir coisas pouco a pouco que eu preferia que nem se mostrassem. Mas, ainda depois de as vires, continuaste. Ainda depois de percebermos os dois que foste feito para aquilo, continuaste. E esperaste por mim, pelo verdadeiro eu. Descobrimo-nos um ao outro e a nós próprios, as nossas semelhanças e as nossas diferenças. Tentámos lidar com elas, continuámos. Vimos como somos diferentes depois dos nossos amigos verem. E esmagámos as expectativas deles. Quando eles nos deram os parabéns no nosso primeiro aniversário, fiquei vermelha de orgulho. E continuámos. As coisas mudaram, mas nós adaptámo-nos, continuámos. Pelo bom e pelo mau estivemos juntos. 
Que venha mais. Que venham mais jantares fora, mais maratonas de Game of Thrones, mais discussões aquecidas sobre política e, sobretudo, mais amor. Sabes uma coisa? Às vezes as minhas amigas estranham como não gosto de coisas lamechas, mas assim somos nós. Apesar de não haver muitas declarações de amor pelo meio, sei o quanto gostas de mim e tu sabes o quanto gosto de ti. 
Vamos continuar a esmagar as expectativas deles. 
Amo-te.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Polo Norte e Polo Sul


Olá, pessoal! Hoje venho falar-vos da minha struggle como filha de pais completamente opostos. Quando eu digo completamente, quero dizer completamente (isto é, deixando de parte os dois filhos que têm em comum). Em termos de personalidade, eles são muito diferentes, pergunto-me até o que foi que os atraiu em primeiro lugar.
O meu pai stressa-me. Muito. Mas não falo sobre questões da minha vida académica, falo exatamente sobre questões minhas da minha personalidade. O meu pai é a pessoa mais emotiva que já conheci e eu, por outro lado, sou um tanto fria, por isso chocamos. Desde que comecei a florescer como um indivíduo singular, eu e o meu pai começámos a ter uma relação um bocado difícil, porque eu estou a tornar-me bastante parecida com a minha mãe. Hoje, por exemplo, fui jantar com ele e começámos a falar sobre viagens e eu disse que não acho que viagens são uma prioridade. Ele ficou imediatamente com os olhos vermelhos e com pouca vontade para falar. Juro que, às vezes, ele consegue ser pior do que raparigas adolescentes. Já tivemos as nossas grandes discussões porque ele me quer contar da vida dele e eu tenho uma noção de privacidade um bocadinho severa. E stressa-me tanto ele 1. querer "corrigir-me" (palavras dele) e 2. deixar-se emocionar tanto por coisas tão insignificantes. Ainda estou no processo de tentar aceitar e lidar com isto em paz.
A minha mãe, por um lado completamente diferente, não me conta nada, nem quer saber de nada. Isto é, sem ser das notas da escola. Eu sei que ela gosta mesmo de mim, mas ela foi educada pela minha avó, que ainda consegue ser mais fechada do que nós as duas juntas, então acaba por não conseguir abrir-se comigo (ou com qualquer outra pessoa). Honestamente, eu tento de vez em quando perguntar-lhe se saiu com os amigos e como foi, mas ela não se sente confortável. E custa-me muito chegar a casa e ela perguntar-me como foi o meu dia, mas mais por educação do que por curiosidade. Gosto tanto da minha mãe e adorava conseguir sair com ela um dia, só nós as duas e que conversássemos. Estou ansiosamente à espera desse dia.
E aqui estou eu, no meio de dois universos extremamente diferentes, não só com esperanças que um dia haja equilíbrio, mas também a tentar perceber onde é que eu encaixo.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Be proud of yourselves


Saudações, queridos leitores. Peço desculpa pelo tempo que passei sem vos escrever, mas agora é a reta final na escola e é tudo ou nada (eu estou a tentar optar pelo tudo), portanto o tempo é escasso nesta altura. Hoje venho falar-vos de um misto de coisas, entre elas a vergonha e o medo. Neste caso, falo de situações em que se sentem demasiado embaraçados para assumir aguma coisa.
Ontem tive de levar o meu computador pessoal para a escola para fazer um trabalho de grupo. Não querendo ser má, a stora pôs-me no pior grupo de sempre, com os dois indivíduos mais gozadores e convencidos da turma inteira. Eu até costumo ser cuidadosa e organizar o desktop para esconder coisas que não quero que vejam, nomeadamente, coisas do blog. Mas, desta vez, foi tudo tão à pressa que nem tive tempo de fazer isso. Para meu azar, eu abri o computador e estavam lá escarrapachadas duas fotos que usei para o blog (uma de uma mulher semi-nua e outra de um grupo de mulheres em roupa interior). E pior ainda, o computador estava tão lento que, por mais que clicasse no icon da net, aquilo não se mexia e as fotos estavam em grande no desktop e os meus dois colegas a verem aquilo. Por momentos ainda pensei ah eles nem devem ver, mas depois a rapariga (uma figura estranhamente peculiar) começou a rir. O rapaz foi a seguir. Senti as minhas bochechas a ficarem vermelhas como dois tomates e quis enterrar-me ali. Considerei ainda arranjar uma desculpa para ter aquelas fotos guardadas, mas apercebi-me de que, quanto mais puxasse o assunto, mais eles se iam rir. Então ignorei e prossegui com o trabalho.
É tão errado... mas nem vos sei dizer o que é mais errado: se eles a rirem-se de mim, se eu a ter vergonha de uma coisa que não devia ser vergonhosa. Só uma pessoa da minha turma sabe que tenho um blog e costuma lê-lo, portanto percebo que eles tenham ficado à toa com duas fotos de mulheres semi-nuas no meu computador. Se eles soubessem do blog, talvez percebessem o contexto, mas não tenho coragem nem necessidade de o divulgar aos meus conhecidos. Honestamente, acho que ainda iriam gozar mais se soubessem.
Não sou vítima de bullying, isso nem existe na minha turma, mas há sempre estas duas ou três pessoas que não conseguem conter aquele risinho ou aquele comentário que vos magoa. Não fiquei chateada, eles nem são meus amigos (cortem-me a cabeça se alguma vez for amiga de pessoas assim), mas fiquei com receio e bastante envergonhada. Pergunto-me o que diriam se soubessem dos meus problemas... até porque pessoas que não conhecem esta realidade não a costumam reconhecer. Riem-se quando se fala em caso de vida ou de morte. Não os posso culpar, é a forma como pensam. Quando eu bati no fundo, houve pessoas da minha própria família que não o reconheceram. O meu pai pensava que eu estava só aborrecida. Magoa, mas pronto... o que é que se vai fazer?
Agradeço-vos por lerem este meu desabafo e aproveito para vos deixar um conselho: não tenham vergonha, sejam fortes e tenham orgulho em vocês próprios. E não deixem que vos digam que são estranhos ou parvos, vocês é que decidem quem são.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O que é esperado de ti?


Que cases. Que te juntes numa cerimónia branca e imaculada, rodeada de família e amigos. Que tenhas filhos depois. Só depois. Esperam de ti, mulher, que saibas, no mínimo, estrelar ovos e que gostes de homens. Mas que sejas fiel. Ordeira e arrumada. Limpa e asseada. E que dês de mamar. Que sejas incansável na função de mãe, sem lágrimas ou dúvidas. Mãe que é mãe nunca se arrepende de nada. Nem de os ter. Nem do que faz. Nunca questiona os conselhos dos mais velhos.
Esperam de ti isso e mais. Que qualquer sensação de fraqueza é para erradicar do peito e da cabeça. Esperam que se te dizem que deves dar peito até aos dois anos, é para cumprir. Que se não sentes qualquer gozo nisso, és menos mãe. Menos capaz. Menos mulher. Esperam de ti um parto normal. Gaja que é gaja, tem parto vaginal. As outras são umas “meninas”. Esperam de ti a boçalidade da pré-história.
Esperam que tenhas os filhos sempre limpos e que lhes dês banho todos os dias após uma refeição sem fritos ou salsichas. Esperam que a roupa do homem com quem casas, porque é suposto gostares de homens, esteja passada a ferro. Que se não podes, contrata alguém.
Esperam que não haja vincos na tua camisola quando vais trabalhar todos os dias nem nódoas de ranho ou papa. Esperam que tires um curso. Que sejas “alguma coisa” mas que consigas ter a casa num brinco, sem pingo de pó ou brinquedos fora do sítio.
Esperam que sejas magra. Atlética. Que corras todos os dias. Ou dia sim, dia não, vá. De depilação feita e unhas coloridas. Que faças bolos ao sábado. E que não tenhas as raízes do cabelo por fazer. Esperam que te comportes bem e que nunca bebas um copo a mais para não caíres em figuras ridículas. Que nunca sejas daquelas que urina entre dois carros, no meio do Cais do Sodré.
Esperam isso. Esperam mais. Que nunca adormeças maquilhada porque sujas a fronha da almofada. E que não te separes. Aguenta. É suposto aguentares porque tudo dá trabalho na vida. Por isso, é suposto esforçares-te. Pelos filhos. Por ti, não. Não carece. Por ti, não. E pela imagem. A imagem. E o que gastaram naquele casamento sumptuoso! Não. Aguenta, se faz favor. Pelos teus pais e pelos teus filhos. Esmera-te. É capaz de ser culpa tua.
Esperam isso de ti. E não convém falhares. Esperam que tenhas sempre a louça na máquina e a roupa estendida. Que a cama esteja sempre feita. Todos os dias. Esperam de ti pouco rasgo. Se pensares demasiado, vais questionar demasiado. Ser curiosa ainda vá. Reflectir é evitável. Não esperam que sejas uma grande intelectual ou que fumes charutos ou que gostes de brandy. Vais beber licor de café ou vinho do porto e fumar qualquer coisa com sabor a mentol. Esperam de ti a dignidade. Que aceites o assédio como um galanteio. Esperam que uses saltos altos todos os dias e que uses um perfume que enche o elevador. Esperam que sejas isto. E mais. Só não esperam que sejas feliz.
de Rita Marrafa de Carvalho

sexta-feira, 6 de maio de 2016

All bodies are beautiful... for sure?


Olá olá! Boa tarde e para já peço desculpa a todos pelo tempo que estive sem postar nada, tenho tido um monte de testes e agora é tudo ou nada. Hoje apeteceu-me partilhar com vocês uma coisa que me tem acontecido nas últimas semanas. O meu último post foi exatamente o que é a anorexia e eu postei isso porque era uma coisa que tinha estado na minha cabeça ultimamente, e agora eu noto que começo a ficar um tanto preocupada com o meu aspeto físico.
Até sou uma rapariga que se preocupa, uso maquilhagem regularmente e de vez em quando até faço exercício físico (woow), mas tenho notado que tenho estado um bocadinho obcecada. Quando digo obcecada quero dizer que engordei 1kg e tenho feito mais exercício do que o usual e tenho evitado os açúcares. Vou ser honesta: não sou exatamente magra, gosto bastante de comer um chocolatinho todas as semanas (ou mais vezes até), mas 1kg não deveria ser razão para me preocupar.
O facto é que me preocupei. E muito. Cheguei ao ponto de olhar para as calorias num pacote de queques de chocolate. Muito honestamente, isto preocupa-me porque foi assim que os meus problemas começaram... com o exercício em demasia e o controlo das calorias. A minha falta de autoconfiança também não contribui para isto...
Um lado de mim diz isto pode ser só SPM (que começa a ficar cada vez mais longo), mas outro diz para eu ter cuidado e já nem sei. Tenho tido uns dias um bocado maus e isto pode ser só um reflexo disso só que também pode não ser e a incerteza está-me a matar. Eu sempre fui um pouco preocupada com o meu corpo porque nunca o tive como queria. Sempre mais barriga, mais coxas, menos curvas... nem me considero exigente (quanto a isto, pelo menos), mas não é assim tão difícil manter um corpo sem gorduras em demasia. Já me apercebi que o meu corpo não foi feito para ser magro, a minha estrutura é mesmo assim, mas odeio o meu corpo.
Até me estou a sentir mal por estar aqui a descarregar os meus problemas numa página online, mas não me sinto confortável o suficiente para partilhar isto com as pessoas... e as com quem partilho dizem-me sempre "deixa isso, estás bem assim". Surpreendentemente, isso não ajuda!
Apesar disto tudo, continuo a acreditar que todos os corpos são bonitos, se trabalhados bem, isto é, vestidos de forma adequada. Não se deixem levar como eu, mentalizem-se de que são bonitas/os e, um dia, vão acreditar verdadeiramente nisso.