quarta-feira, 30 de março de 2016

Mirror, mirror on the wall

Tenho andando um bocado ocupada com os feriados e os encontros de família, por isso não tenho conseguido postar, mas hoje finalmente consegui arranjar uns minutos para mim. Estava a apetecer-me escrever sobre a beleza, os ideais de beleza... algo à volta desse tema.
Eu gosto de me considerar uma rapariga que está dentro dos trends, quer seja de moda, maquilhagem, etc, e passo algumas horas do meu dia a ver fotos de modelos, as suas marcas de eleição e começo a perceber que o ideal de beleza feminino está a mudar brutalmente. Há cerca de 7 anos (perto da altura que me lembro de começar a prestar atenção aos corpos das mulheres) o ideal de beleza era uma mulher muito magra, com os ossos muito salientes e a famosa thigh gap. Foi a partir desse corpo que eu obtive a minha inspiração e comecei a trabalhar arduamente para ter um corpo assim. Ainda hoje há modelos assim e, muito honestamente, eu não acho bonito um corpo que não tem curvas, um corpo que parece que a vida lhe fora sugada. Há mulheres que são mesmo assim, têm um metabolismo muito rápido e, por mais que comam, vão sempre ficar magras.
Hoje, 2016, eu vejo como a beleza mudou. Para já, temos a febre do rabo grande e redondo, mas vemos uma mulher mais redonda, mais natural. Eu, pessoalmente, acho que as mulheres retratadas em esculturas feitas na Grécia Antiga são lindíssimas, talvez sejam mulheres imaginadas pelos seus autores, mas parece que todas as pequenas curvas dos seus corpos transmitem uma beleza natural, não trabalhada. Cada vez mais associo essa mulher à mulher contemporânea e, digo-vos já, estou muito orgulhosa desta mudança. Adoro que a beleza hoje seja uma coisa simples, não é extremista. Para se ser bonita não é preciso ter grandes curvas ou ser muito magra. Gostava que me tivessem dito isso. Não digo os meus pais e amigos, sempre me disseram que era bonita. Falo das mulheres que as meninas têm como modelos. Gostava que as mulheres que eu visse na televisão fossem mais como eu (ou eu como elas). Porque, no fundo, o que importa não é o que nos dizem, mas o que nos mostram. De que vale dizerem que ficam super bem com aquele top justinho quando se riem baixinho quando o vestem?
Hoje é um dia em que estou verdadeiramente feliz com o que é considerado bonito. Todos os anúncios de grandes atrizes e modelos a defender a opressão feita pela sociedade para se ser bonita dão-me motivação. Adoro que o que esteja na moda seja a auto-confiança e a beleza com que nascemos. Claro que há coisas no meu corpo que gostaria de mudar, mas já não me sinto pressionada para ser de uma certa forma e ainda bem que isso mudou. Por isso lembrem-se: a beleza não se ganha nem perde, ela está aí dentro, só precisam de a procurar. 

sábado, 26 de março de 2016

"A Tabacaria" de Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Duas caras

É uma da manhã e, depois de ter escrito um texto sobre as polaridades do meu dia, apercebi-me de que não era isso o que me estava a apetecer falar. Apetece-me falar sobre mim, sobre que eu sou. Começo por dizer que, apesar de eu dever ser apenas uma pessoa, não o sou (Atenção: eu não sofro de esquizofrenia ou de qualquer tipo de distúrbio dissociativo de identidade). O que eu quero dizer com isto é que a forma como me comporto, os traços que deixo sobressair são todos diferentes, dependendo da minha companhia. A partir da minha adolescência começaram a existir duas Joanas: a Joana da mãe e a Joana do pai.
Os meus pais são as pessoas mais importantes da minha vida, mas são duas pessoas diferentes, muito diferentes. As suas personalidades são diferentes, as suas vidas e até as suas expectativas sobre mim e, de modo a obter a tão gloriosa e distante aceitação dos pais, esmero-me para os agradar das formas que cada um aprecia. Até um ponto recente da minha vida percebi que a coisa pela qual eu mais luto é a aceitação. Não só isso, mas também o agrado, não digo que faça tudo, mas faço muito para agradar os meus pais. Por isso agora faz-me sentido: eu sei o que a minha mãe quer e tento corresponder às expectativas. O mesmo com o meu pai.
Sei que não sou a única e que este tipo de situação não acontece só com os pais e os filhos, mas também sei que eu não nasci para agradar ao mundo. O problema, sabem, é que a minha cabeça não é capaz de interiorizar isso, eu não sou capaz de fazer coisas que poderiam eventualmente na minha fantasia desiludir os meus pais.
E não consigo exprimir o quanto dói cá dentro fazer isso... vem-me à cabeça outra vez a ideia do vazio, tentar e dar tanto até que não sobre mais nada. E, no fim do dia, dou por mim a pensar e a tentar perceber quem sou eu, porque há a Joana da mãe, a Joana do pai e a Joana dos amigos, mas eu sei que nenhuma dessas Joanas sou eu. Caramba, nem sei qual dessas Joanas está mais próxima de que eu sou realmente. Porque o caráter não se forma sob o olhar de superiores, o caráter forma-se quando estamos sozinhos, quando ouvimos uma música e estamos completamente à vontade, tão à vontade que deixamos aquele sorriso ou aquela lágrima sair.
No fim disto tudo tenho uma mensagem para vocês: lutem pelo vosso tempo e pelo vosso espaço, porque sem ele não vão conseguir deixar que a flor aí dentro desabroche.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A minha história


Tenho estado a pensar sobre o meu blog e apercebi-me de que os meus (poucos) seguidores têm o direito de saber de quem é que estão a tirar conselhos. Por isso decidi que hoje ia fazer um pequeno texto com a minha "autobiografia". Mais uma vez: vou tocar em assuntos que podem ser sensíveis para algumas pessoas, portanto por favor digam-me se eu perturbar alguém, não quero que volte a acontecer.
Então vou começar pela minha infância. Nasci em Lisboa, onde vivi até aos meus 7 anos, quando os meus pais se aperceberam de que o estilo de vida não era o melhor (e eu estava sempre com problemas de pulmões por causa da poluição), e foi aí que nos mudámos para Azeitão. Andei no colégio St. Peter's School do 2º ao 8º ano e, que fique bem claro, foi uma má experiência. Quando tinha 12 anos os meus pais separaram-se, o que para mim foi um grande alívio porque eles tinham (ainda têm) uma relação horrível por isso o ambiente lá em casa era insuportável. Foi a partir daqui que os meus problemas começaram.
No início de 2013 comecei a prestar mais atenção ao meu corpo, às minhas curvas, à minha gordura. Fiz patinagem artística durante 4 anos por isso tinha as coxas maiores do que a maior parte das raparigas, mas isso para mim era nojento. Começaram as dietas, o exercício físico em demasia, começou a anorexia. Eu não comia quase nada durante o dia, estava sempre a morrer de fome e em poucos meses passei de 50kgs a 37kgs. Uma pessoa precisa de comida e de dormir para manter a sua energia aos níveis normais ou, pelo menos, para a ter. Como não comia, passava o dia a dormir para conseguir ter qualquer tipo de energia. Nesse verão o meu pai queria levar-me a mim e ao meu irmão mais novo de férias ao Brasil (terra natal dele) e, como já disse antes, os meus pais não conseguem sequer ter uma conversa civilizada. Consequentemente, o caso foi para tribunal porque a minha mãe não queria que fossemos, mas a juíza acabou por decidir a favor do meu pai e lá fomos nós para o Brasil durante 3 semanas.
Foram as piores 3 semanas da minha vida. Até agora pelo menos. Ninguém me deixava em paz, ninguém percebia que não estava bem. O meu próprio pai não foi capaz de perceber o que se estava a passar, achava que eu estava só chateada, ele estava em negação completa.
Mas voltámos e eu estava cada vez mais magra, então a minha mãe conseguiu uma consulta de distúrbios alimentares para mim no Hospital Santa Maria. E foi isso que me ajudou. Nesse ano letivo mudei de escola e quase todas as quartas-feiras saía da escola à pressa para ir para o hospital. Mas ninguém se apercebia (menos a minha DT que chegou até a chamar a minha mãe à escola porque estava mesmo preocupada).
Em abril de 2014 a anorexia já estava mesmo quase desaparecida. Em maio comecei a namorar com um rapaz brutal que me ajudou imenso (e ainda continuamos juntos!). Mas em setembro começou tudo a piorar outra vez, mas desta vez foi a depressão que me atacou. Não tenho sequer forma de voz explicar o que sentia... eu esforçava-me tanto para toda a gente que acabava vazia porque tinha dado tudo o que tinha. Foi muito muito difícil passar aquela fase. Estive sob o efeito de antidepressivos durante 9 meses e foi com sorte que não me admitiram na ala psiquiátrica do Dona Estefânia.
Hoje, março de 2016, estou melhor, ainda não a 100%. Consegui finalmente perceber (com muita ajuda) o que foi que causou toda esta m*rda por isso estou no processo de trabalhar esse aspeto da minha vida. E pronto... é isso! Resumidamente foi isso que me aconteceu e estou para ver o que é que vem a seguir... 

sábado, 19 de março de 2016

How to: fight depression


Hoje decidi que, para possíveis leitores que se encontrem na mesma situação que eu, seria interessante eu fazer um post com as coisas que me ajudaram a melhorar. Ainda não estou bem a 100% e acho que nunca vou estar. Vejo-me como uma pessoa com tendências depressivas... desde pequenina que sempre tive curiosidade sobre doenças mentais, especialmente anorexia e depressão. Curiosamente foram as duas doenças que me atacaram. Mas essa é uma história para depois. Vamos lá começar a lista.

  • Comer bem. Ter uma alimentação saudável é crucial para uma recuperação sólida porque 1. precisamos de ter energia e sem comida não há energia e 2. para prevenir a vontade de deixar de comer, ou seja, anorexia.
  • Fazer exercício!!! Esta para mim é a mais importante porque, apesar de eu detestar exercício físico, ajudou-me imenso mesmo. Para começar, é ótimo para não ganhar peso e manter o corpo bonitinho, e depois sabe mesmo bem quando acabam o workout, sentem-te mais aliviado. Mas atenção: não façam demasiado, não deixem que se torne numa obsessão.
  • Sair de casa. Eu sei que a depressão só nos faz querer estar sozinhos e isso é normal, mas temos de o contrariar. Quando os amigos forem almoçar fora vão também, sejam vocês a dar o primeiro passo e convidem os vossos colegas de turma para uma saída. Custa, mas vale a pena.
  • Por para fora. Quer seja com um psicólogo, um amigo, um familiar ou um diário, ponham para fora o que está aí dentro, não deixem acumular. Eu nunca tive uma melhor amiga com quem me sentisse à vontade o suficiente para contar estas coisas, por isso contava à minha mãe. Isto é, até eu me aperceber que lhe doía muito ouvir e perceber o que ia na minha mente. Foi aí que eu comecei a contar as coisas à minha gata, a Tigresa. Ela não dizia nada de volta e às vezes era melhor assim.
Para resumir, estas podem não ser as melhores opções para toda a gente, mas o ponto é: contrariar a depressão, fazer tudo o que ela não nos deixa fazer. Tentem! Vale a pena. Espero que tenha ajudado!

Paciência elástica

Dou por mim a deixar-me ser afetada por simples situações. Ontem fiquei bastante incomodada com o comportamento irresponsável e desorganizado de uma das minhas professoras (fizemos um trabalho com três partes e, para além de nos dar a nota em percentagem, não referiu se esta seria a nota da média do trabalho em geral ou de apenas uma parte).
Não é a primeira vez que me deixo afetar por coisas assim tão simples. Quer dizer, é bastante frustrante quando isto acontece, mas não é normal ou mesmo necessário que estas coisas estraguem o nosso dia. A minha situação faz com que isto aconteça: fico com uma sensibilidade de quem está sempre com SPM e vou de um extremo ao outro muito facilmente. O meu dia pode ser calmo ou uma montanha russa.
Chateia-me profundamente que isto aconteça, mas não é só a mim que incomoda. Amigos, familiares e mesmo o meu namorado não compreendem a situação (o que eu não julgo, como Pessoa dizia: "Há sensações sentidas só com imaginá-las", mas nem toda a gente tem essa imaginação). Dou por mim a chatear pessoas amigas por viver em altos e baixos. É normal que tal aconteça, é frustrante uma pessoa que não é capaz de passar um dia sem ir a um dos extremos.
Outra das minhas sensibilidades exageradas é o barulho: não suporto barulho. E o pior é que não é barulho do género música alta ou coisas assim parecidas. O que me tira fora do sério são barulhos pequenos, coisas insignificantes que me incomodam imenso. O meu irmão não é capaz de mastigar sem que eu possa ouvir as peripécias que acontecem dentro da sua boca e eu não aguento mesmo. E odeio isso, odeio ser incomodada por coisas tão pequenas e normais, até porque haverá de chegar a um ponto em que os outros não serão capazes de aguentar o meu caráter piquinhas. Mas o facto é que preciso de silêncio. Não gosto de discotecas, de música eletrónica nem de coisas muito barulhentas.
Mas estou a trabalhar nisso, estou a procurar esticar a minha paciência mais um bocadinho (apesar de eu a sentir já demasiado elástica). Wish me luck!

quinta-feira, 17 de março de 2016

Há tanta cousa que, sem existir, existe, existe demoradamente...



Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…

Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Greetings

Venho por este meio apresentar-me à internet. Sou a Joana, tenho 17 anos e vivo no distrito de Setúbal. Estou no 10º ano no curso de Línguas e Humanidades e a minha disciplina favorita é Literatura Portuguesa (apesar de ter tido um 12,4 no último teste). Ultimamente não tenho ouvido muita música, mas adoro os 30 Seconds to Mars, os Arctic Monkeys e a Lana del Rey. Tenho dois livros favoritos, os meus portos seguros: The Fault in Our Stars de John Green (o cliché romance adolescente) e 11/22/63 do génio Stephen King. Não gosto de variar. Gosto da rotina. Gosto de acordar sempre à mesma hora e comer a minha tosta mista com sumo de laranja ou café com leite. Gosto de ir para a mesma escola com as mesmas pessoas e os mesmos problemas. Não sou uma pessoa aberta a mudanças.
Poucas pessoas sabem que ainda sofro de depressão, mas isso está prestes a mudar. Não é grave, mas já foi. Já passei por coisas demasiado más, algumas nem são dignas de me envergonhar à frente desta rede social. Não tenciono chocar com a minha história, não faço isto para que tenham pena de mim, mas não consigo manter um hábito de escrita que me ajude a deixar de ser uma hoarder (pessoa que acumula; no meu caso sentimentos).
Agora perguntam-se se eu não estou a inventar isto tudo para ter atenção. Por mero acaso, já este ano (letivo) me perguntaram assim:
Mas foi uma depressão a sério?
Sim. Não me auto diagnostiquei, foi tudo a sério. Há aproximadamente dois anos e meio vou a consultas com uma psiquiatra muito simpática que me ajudou em tudo o que podia (e conseguiu resultados brutais relativamente rápido).
Neste blog vou postar sobre a minha experiência ou apenas reflexões sobre o meu desconcerto com o mundo (como dizia Camões). Vou tocar em assuntos sensíveis e, sem querer ofender ninguém, peço que me digam se ficarem de qualquer forma incomodados com as minhas palavras.
Obrigada por lerem, fiquem por perto :)